Política na ciclofaixa

5 maio

São Paulo, 1º de maio – feriadão di-vi-no, sem chuva

Ciclofaixa.

A moça da bandeirinha do Bradesco indica que os ciclistas devem parar, assim como os carros. Um rapaz para a bike.

“Bom dia”, ele diz para a moça da bandeirinha. “Bom dia, tudo indo bem?”, ela responde. “Tem que ir, né? Será que com a Dilma a gente vai?”

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Rede na varanda

12 set

Desejou ser muito. Desejou ser o amor inabalável. Desejou ser o grande amor de algumas vidas. O porto seguro. O norte. O rumo. O desespero. O aconchego. A confiança. O ciúme. A presença. A ausência que doía. A saudade. A perdição. A manhã, tarde e noite. A única. A melhor. A ansiedade. A firmeza. A esperança. O modelo. O exemplo. Desejou ser o próprio desejo.

Descobriu que não fazia mais sentido querer ser nada, e jamais precisaria ser de mais ninguém senão ele, quando naquela madrugada perto da primavera ouviu a mais bela declaração de amor que jamais esperou: você é minha rede, pendurada na varanda.

Fugiu.

26 jul

Aquela fuga parecia a mais árdua que já tinha enfrentado. Corria e, sem parar nem para beber água, pensava em quantas vezes havia fugido e sido vitorioso. Começou fugindo da mãe, que corria atrás com o cinto na mão. Depois fugia da escola. Já fugiu de amigos, fugiu de problemas, pensou em fugir com o circo. Quase todas foram fugas vitoriosas, mas nenhuma o fazia ter tanta força para continuar tentando.

No entanto, aqueles eram tempos diferentes. Era um monstro atemorizante, precisava escapar. Escondeu-se por muito tempo, conseguiu se camuflar, até ajuda conseguiu. Tinha tido muitas ideias. Lugares para onde ir, disfarces para adotar, hábitos para não voltar atrás.

Mas andava em círculos na fuga de si mesmo.

Como você está?

9 maio

“E você, como está?”

“Estou bem. Em um novo emprego, um novo amor, uma nova rotina e planos para o futuro.”

Aquela notícia foi demais para João Estagnado. Não fez a pergunta para ouvir notícias boas. Dizia que não aguentava lamúrias, mas sempre esteve à espera de ouvi-las. Construiu toda a sua vida na mediocridade, mas com uma boa base religiosa, um bom emprego e, sobretudo, sob a falsa casca da autossuficiência. Construiu sua vida sendo melhor. Sempre foi o melhor.

Era demais para sua compreensão, ali de sua sala, sua rotina e sua roupa social sempre bem alinhada. Por que topam novos desafios? Por que querem novos amores, já tendo sofrido suficientemente nos anteriores? Para que mudar a rotina, se a de antes era confortável? Bobagem.

A vontade que tinha era de responder “Que besteira!” ou “Não se iluda. Logo você estará insatisfeita de novo” ou ainda “Em algum momento você vai parar de fazer planos e aceitar que a vida não precisa de emoção.”

Digitou, apagou, digitou, apagou. Limitou-se a responder: “Boa sorte.”

Recebeu como resposta um “:)”. Precisaria investir em outra janela, alguma em que sua opinião realmente importasse.

Por sorte, Maria Deprê estava online. Clicou. “Oi! Quanto tempo! Como você está?” Não queria saber. Queria ter certeza de que estava melhor.

Dor

23 abr

Deixe-me passar com minha dor. Ao contrário do que diz um samba, não precisa tirar o seu sorriso do rosto.

Só me deixe passar.

Se quiser passar invisível, permita.

Se quiser chorar, não me diga para ser forte. Se quiser sorrir, não me imagine louca.

Se quiser parar, não me dite o ritmo. Se acelerar, deixe-me passar.

Acontece que se tem uma coisa que só pode ser de uma pessoa é a tal da dor.

E essa é minha.

Quando for a sua, te deixo passar, também.

Amor em paz

19 dez

Era tão diferente de tudo a que estava acostumada, que nem sabia se era amor. Como era possível? Ela acorda em paz, vive em paz, dorme em paz. A ansiedade existe ao fim do dia, porque os minutos seguintes são sempre de alegria. Alegria em forma  de cinema; alegria em forma de abraço; alegria em forma de sorriso; alegria em forma de circo; em forma de sopa, peixe ou massa; em forma de lago; em forma de olho brilhando; em forma de festa; em forma de cócegas; em forma de música; em forma de teatro; em forma de cerveja; em forma de livro; em forma de torta de chocolate belga com frutas vermelhas; em forma de capivara; em forma de silêncio; em forma de verdade. Em forma de tanta coisa, que a alegria existe, e não depende de forma nenhuma. Existe em dois. Ou em três, nos dias em que a alegria também tem forma de sorriso de criança, que nem sabe, mas ainda é criança.

Aquela que era antes, não saberia se era amor, porque a que existe agora não se altera. Não briga. Não grita. Não bate o pé. Não critica. Não se incomoda. Não tem que mudar. Não quer que ele mude. Não desconfia. Havia aprendido que isso era desprezo, era indiferença, era falta de amor, falta de afeto. Mas não pode ser. Porque ela só quer. Só gosta. Só sente. Só vive. Só acredita. Só ama.

Coerência

20 nov

Longe de mim o preconceito. Mas candomblé é macumba. Umbanda é magia negra. Cabelo ruim é difícil demais de arrumar. Samba é coisa de pobre. No fim do dia to com cheiro de nêgo. Quando ando de metrô saio fedido. Rap é coisa de bandido. Funk é coisa de gente promíscua. Orixá não é santo. Deus não gosta de terreiro. Sai pra lá com essa fita do Bonfim. Capoeira é chaaaaato. Viajar pra África pra que? Esse povo do Nordeste é feio. Tem coragem de dar esses doces de Cosme e Damião pro seu filho? Mas é importante ter consciência, sim.